Solano Trindade – o multiartista de Embu
Se a Arte de Embu tem um patrono, ele é Solano Trindade.
Poeta, pintor, teatrólogo e folclorista, pai de Raquel Trindade. Fundou em 1959, no Rio de Janeiro, o Teatro Popular Brasileiro. Em 1961 Solano Trindade, mudou-se para Embu com seu grupo folclórico composto por 30 pessoas. Seu movimento pretendia popularizar a arte. As festas promovidas pelo grupo, com danças afro-brasileiras e exposições de arte, começaram a chamar a atenção da intelectualidade paulista, que passou a freqüentar a cidade.
Pouco conhecido do grande público, sua poesia foi comentada por Carlos Drummond de Andrade, que via nos versos de Solano “uma força natural e uma voz individual rica e ardente que se confundia com a voz coletiva”.
Foi celebrado também por Ney Matogrosso, que musicou o poema “Tem gente com fome” ainda nos tempos do grupo Secos & Molhados, mas só pôde incluí-la em seu disco após a queda da censura. Em O poeta do povo – Ediouro (160 páginas, R$ 24,90), uma homenagem póstuma de seus filhos, para este homem que se destacou na história da cultura brasileira.
Sua poesia é o retrato do cotidiano dos dramas e dos sofrimentos do povo, suas angustias e seus tormentos. Uma jornada lírica do folclore e da sociedade periférica, e dizia sobre sua própria criação:
“Não disciplinarei minhas emoções estéticas: deixá-las-ei à vontade, como o meu desejo de viver…”.”Eu canto na guerra,/ Como cantei na paz, /Pois o meu poema/ É Universal./ È o homem que sofre,/O homem que geme, / É o lamento / Do povo oprimido,/ Da gente sem pão…/ É o gemido/ De todas as raças, / De todos os homens / É o poema / Da multidão!”Meu canto de guerra, página 70O livro reúne quatro cadernos de poesia, algumas inéditas, selecionadas de seus principais livros: Poemas d’uma vida simples, Seis tempos de poesia e Cantares ao meu povo, publicados entre 1944 e 1953.
No primeiro caderno, Poemas sobre o negro, os sonhos da liberdade que Solano sempre lutou é colocado em versos simples, que se remete aos grandes líderes da resistência negra, como Zumbi dos Palmares, aos navios negreiros que Castro Alves cantou e à religião africana.
Em Poemas de cunho político-social, estão presentes questionamentos em defesa dos interesses e dos direitos do homem comum, o universo do trabalhador negro, que labuta duramente sob sol e chuva. Temos aqui o pacifismo, o antiimperialismo, a intolerância dos poderosos como idéias colocadas por Solano Trindade em seu canto lírico.
Poemas de amor, seu terceiro caderno, encontramos odes para exaltar a beleza da mulher negra e o sentimento de alegria da raça.
E por último, Poemas sobre a vida do poeta, temos sua memória, a nostalgia de sua família, a infância… Seu último poema, intitulado “Interrogação” está presente nesta seleção de poesia, algumas inéditas em livros.Seus versos cantam, com simplicidade, a realidade do ser negro no Brasil, e como Cartola, mostrou com maestria os sentimentos dos morros e das favelas do país tão pungente desse racismo que podemos apelidar de “cordial”, uma poesia carregada de significado e que chega em uma boa hora, para mostrar a uma nova geração o quanto está presente em nossos dias, nos becos das favelas do Rio, Recife e Embu ecoam ainda a voz de Solano.
Solano Trindade foi cidadão politizado e apontou problemas de desigualdade e injustiça na vida social brasileira. No debate da questão racial no país, tornou-se precursor. Ao longo da vida se envolveu com a poesia, as artes plásticas, o teatro e o folclore. Mas foi, sobretudo, o poeta do povo.Mas, por causa desta música, em 1944, Solano foi preso e teve o livro “Poemas de uma Vida Simples” apreendido. Além disso, em 1964, um dos seus quatro filhos, Francisco Solano, morreu numa prisão da ditadura militar. Com a arte e o artesanato que se espalhavam pelas ruas, a cidade ganhou outros contornos e deu origem ao novo nome do lugar, que passou a ser conhecido como Embu das Artes.
Solano foi homenageado em Embu de várias formas, seu nome está eternizado em uma escola da cidade, uma rua, e no Teatro Popular Solano Trindade, ele que tanto amou a dança e o teatro. Saiba Mais sobre os Artistas de Embu.
(texto adaptado de várias fontes, trecho de Luiza Delamare, PMETE, Wikipédia, entre outras)
Serviço: Teatro Popular Solano Trindade – Avenida São Paulo, 100 – Centro – Embu das Artes
Tem gente com fome – Veja o Poema declamado por Raquel Trindade
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Piiiiii
Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dzier
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu
Conversa
Eita negro!
quem foi que disse
que a gente não é gente?
quem foi esse demente,
se tem olhos não vê…
- Que foi que fizeste mano
pra tanto falar assim?
- Plantei os canaviais do nordeste
Eu plantei algodão
nos campos do sul
pros homens de sangue azul
que pagavam o meu trabalho
com surra de cipó-pau.
pra eu não chorar,
E tu, Ana,
Conta-me tua vida,
Na senzala, no terreiro
cantei embolada,
pra sinhá dormir,
fiz tranças nela,
pra sinhá sair,
servi de amor,
dancei no terreiro,
pra sinhozinho,
apanhei surras grandes,
sem mal eu fazer.
tu tens pra contar…
não conta mais nada,
pra eu não chorar -
que andaste a fazer
- Eu sempre fui malandro
Ó tia Maria,
gostava de terreiro,
como ninguém,
subi para o morro,
fiz sambas bonitos,
conquistei as mulatas
bonitas de lá…
- Quem foi que disse
que a gente não é gente?
Quem foi esse demente,
se tem olhos não vê.

Solano Trindade (Arquivo AE)
Obras de destaque: livros – “Poemas negros” (1936); “Poemas de uma Vida Simples” (1944); “Seis Tempos de Poesia” (1960); “Cantares ao meu Povo” (1962).
No Embu, ele chegou em 1961 e se apaixonou pela cidade, sendo um dos precursores do movimento que a transformaria em Embu das Artes. Poeta, escreveu Poemas D’uma Vida Simples (1944), Seis Tempos de Poesia (1958) e Cantares ao Meu Povo (1961). Ator, foi o primeiro a interpretar Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, no teatro, e participou de filmes como O Santo Milagroso, Agulha no Palheiro e, como co-produtor de Magia Verde, foi premiado em Cannes.
Multifacetado, Solano foi também teatrólogo, folclorista, pintor. Sua obra recebeu elogios de intelectuais do porte de Sérgio Milliet, Carlos Drummond de Andrade, Roger Bastide, Otto Maria Carpeux, Darcy Ribeiro, entre outros.

Artista eternizado em Pernambuco, em foto de Pedro Valadares

Se Tem Gente Com Fome, Dá de Comer!














4 Comentários para “Solano Trindade”
Excelente artigo!
Solano Trindade que conheci aos oito anos de idade, Dona Margarida,sua esposa; Seus filhos Rackel, Godiva e um menininho quase da minha idade. Em sua casa, no começo da rua Itacolomi, em D. Caxias, RJ, lembro-me bem: Brincava do lado de fora enquanto Sr. Solano, meu pai João Guinancio, Sr. Custódio, a enfermeira Corina e outros se reuniam para falar de politica partidária ao Comunismo. Bons tempos… Hoje, passeando pela Internete tive essa bela surpresa: Relembrar o poeta que meu pai tanto admirava, saber sobre sua filha Rackel, como conduziu sua vida, e o amor pela arte, herança de seu querido pai tão admirado pela imporância que teve no cenário das artes do Brasil. Cordialmente, Georgina Guinancio.
EXELENTE HOMEM E SUAS POESIA TAMBEM AMEI,AMEI,AMEI
elle é um exeleente poetaaaaaaaaaaaa
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