Mestre Assis do Embu – sua História e sua Arte…
Assis nasceu em Campos Gerais (MG), em 21 de março de 1931, e recebeu em seu batismo o nome de Claudionor Assis Dias, não conheceu seus pais, fora adotado por um alfaiate e já na infância mostrava o gosto pela arte, quando, no primário, se divertia ao esculpir bonecos com barro e madeira, além de passar boa parte do tempo desenhando alguma coisa.
Outra coisa chamava a atenção do pequeno Assis: o teatro. Fazia questão de participar de todas as representações teatrais na escola. Aos 14 anos ele terminou o primário, mas não quis nada com a escola e resolveu trabalhar de marceneiro e pedreiro.
Em 1957, no Ibirapuera, durante a montagem da IV Bienal de São Paulo, Assis estava trabalhando, ironicamente, como pedreiro, quando Wolfgang Pfeifer, ex-diretor do Museu de Arte de Paris, que vinha ao Brasil para dirigir o Museu de Arte Moderna de São Paulo o avistou e perguntou: – Ué, Claudionor, que é que você está fazendo aí?. Ao que ele respondeu dizendo que estava trabalhando como pedreiro. – Mas isso não é trabalho para você, rapaz!

Assis tornou-se um grande líder do movimento artístico de Embu
Mudou–se para Alfenas, e virou assistente de trabalhos manuais e teatro na escola. Veio para São paulo, onde, em 1954, ganhou o primeiro prêmio de uma exposição patrocinada pelo SESI. Sua chegada à capital não foi nada fácil, ficou por quarenta dias sem ter onde morar, passou por albergues, foi detido e até apanhou da polícia. Tentou ser engraxate na praça da Sé, mas os outros engraxates não permitiram, então decidiu ser pedreiro.
E dessa forma o artista fora levado para montar a sala de Segali, a de Morandi e ele ainda ajudou na restauração da maquete de uma obra de Brecheret, exposta na Bienal.
Depois disso, retorna para Minas Gerais, onde funda uma escola de arte com Martins, um amigo português, mas eles logo se desentendem (coisa comum entre os artistas). São Paulo o recebe em 1959.
Assis chega a Embu
“Me lembro direitinho. Era 2 de outubro de 1959. Cheguei na cidade e encontrei o enterro do pai do atual prefeito, Annis Neme Bassith”, contou Assis em reportagem da revista O Cruzeiro, de 3 de fevereiro de 1970.
Indo visitar a mãe adotiva, que trabalhava como cozinheira em um acampamento na então BR-2 (hoje BR-116), perto do km 45, próximo a Embu (atual Aldeinha, perto de Juquitiba), é que Assis, que já tinha uns recortes de jornal que falavam em Sakay e Cassio M’boy, resolve fazer uma visita aos artistas, só pra ver como é que eles trabalhavam. Visitou Cassio em seu atelier, no Cercado Grande, trazia consigo uma peça em cerâmica, chamada de Mameluco (hoje de propriedade do ex-prefeito de Embu, Annis Bassith, de quem se tornara amigo).
Mostrando suas peças ao Sakay, que era aluno de Cassio, foi aconselhado por aquele a procurar Solano Trindade, poeta, pintor, teatrólogo, folclorista, para se aprofundar um pouco nas raízes da arte negra. Solano estava na Galeria Caboré, Praça da República. Assis logo passou a fazer parte do Teatro Popular Brasileiro, era ritmista, bailarino, capoerista, declamador, contra-regra, fazia de tudo, logo convidou Solano para conhecer Embu.
Em 1962 já era morador de Embu, Cassio havia ajudado em sua mudança, instalando-o no Capuava, mas ainda distante do centro da cidade. Neste mesmo ano decidiu ficar na cidade em definitivo. Montou seu barraco num terreno inclinado, de madeira, com dois andares, três peças, bem ajeitado e então começou a trabalhar e levar gente para o Embu. O barraco logo virou o ponto de encontro dos artistas e simpatizantes que apareciam na cidade. Em 1964, Assis junto com Cirso, Sakay, Azteca e Antenor Vaz, organizou o primeiro Salão de Artes Plásticas de Embu. A cidade já estava se consolidando com núcleo produtor de arte.
E surge um líder…
A personalidade forte de Assis, com sua busca pelo conhecimento, novas técnicas, o jeito ireverente e desconcertante logo faz que, em torno de seu carisma, surjam cada vez mais seguidores. Se podemos considerar Solano Trindade uma pedra fundamental, Assis é sem dúvida, o grande líder do movimento artístico de Embu das Artes.
O Mestre Assis logo se torna o porta-voz dos artistas da cidade, ensina crianças e adultos a trabalhar na madeira, e aos poucos, vai conquistando até quem desconfiava do movimento, muita gente começa a se interessar pela arte.
Assis criou a União dos Artistas Independentes de Embu, ele já visualizava que o artista devia se tornar auto-suficiente.
O estilo de Assis sempre foi de vanguarda, cheio de curvas, longe do acadêmico que o norteou no início de carreira. “Os metidos a entender de arte chama abstracionismo o que faço. Não é nada disso. Toda arte é extravasamento. O que eu faço é extravasamento do meu subconsciente. Eu esculpo o homem como eu o vejo inconscientemente. E está proibido que venha alguém dizer que eu sou abstracionista”, sentenciou em frase publicada pela Revista O Cruzeiro, supracitada.
Durante sua estada no Teatro Popular Brasileiro, Assis passa a ter contato com várias personalidades ligadas à cultura e à arte. “Com Solano aprendi a fazer uma poesia mais arrojada e a trabalhar com a imprensa com o objetivo de promover o Embu”, disse o artista, em matéria publicada na Revista Contemporânea – Agosto 2008.
Annis Bassith, então prefeito, confirma que Assis sempre foi um grande divulgador da cidade na mídia “Ele ia em programas de rádio, nos jornais e na televisão. Depois, em um programa de televisão no qual havia a participação ativa de um artista de Embu, todos os dias do programa, o Assis estava sempre lá”, conta.
Teve então seu primeiro programa de televisão com João Batista Lemos e depois com Goulart de Andrade. Depois outras entrevistas vieram com jornalistas da época, Omar Cardoso, Clarice Amaral, Ferreira Neto, Silveira Sampaio, etc..
Assis “em ação”Em 1962, Barbosa lessa organizou em São Paulo, na Praça Dom José Gaspar, a Feira de
Arte Popular com artesanato, arte e danças de todo o Brasil. Assis montou seu estantde com 36 esculturas, além de um painel com recortes de jornal e a denominação: Barraco do Assis.
O Salão de Artes Plásticas era lugar de figuras da imprensa, da arte e cultura, como o poeta Almeida Salles, os críticos de arte e jornalistas Delmiro gonçaelves e Sérgio Milliet, o físico mário Schemberg e artistas como Barrientos, Clóvis Graciano, Ugarte, e os nossos conhecidos e presentes no Embu como cirso Teixeira, Ana Moyses, Raquel Trindade, Acae e Jorge Caetano, Zé Figueiredo, walter Senna, Ranulfo Lira (trazido por Assis), Vicente de Paula, Maria Auxiliadora, Tostão, Chico do Embu, Wanderley Ciuffi e outros. (Saiba Mais sobre os Artistas de Embu)
Feira de Artes, desde 1969…
Com Solano Trindade veio o maracatu, e com Assis veio a congada de Poços de Caldas de mestre Lamparina junto com o Valdemar do morro de Santa Luzia. Não podemos esquecer do Mestre Gama e o Mineiro Pau. Conta Wanderley Ciuffy, em artigo da Revista Contemporânea, que o Barraco do Assis foi o berço da Feira de Artes: “A feira de arte na cidade, segundo o próprio Assis, aconteceu também porque precisávamos sair do Barraco do Assis, pois não cabia mais gente… O início da feira na praça era uma necessidade e a continuidade do Salão também”.
O movimento hippie tomou conta da cidade no final dos anos 60. Podemos dizer que Assis se tornou o “pai” da feira, vários artistas, convidados pelos artistas locais, passaram a freqüentar a cidade nos finais de semana e a expor seus trabalhos nas ruas centrais, ao lado das artes da terra. Assim surgiu a Feira de Artes e Artesanato que, a partir de 1969 se realiza todos os fins de semana.
O sucesso dessa feira, procurada por visitantes daqui e de fora do país, faz florescer um comércio permanente de lojas de artesanato e galerias de arte, antiquário e móveis rústicos que se tornaram a marca da cidade.
Em 1970, Assis foi até Brasília, com Solano, Ciuffy, Salviano para uma exposição, mas houve alguns problemas, Solano começou a ficar doente e precisou voltar, Sakay providenciou um avião para trazê-lo de volta. Seguiram mais duas exposições em Brasília e dezenas de outras em vários estados e cidades do país.
O Mestre Assis sempre foi uma figura de frases marcantes, autênticas, às vezes até folclóricas. “Sou um pedreiro metido à besta”, gostava de dizer. Mas Assis era muito mais que isso, ele aprendera os estilos neoclássico, colonial, gótico e logo demonstrava com sua arte o seu talento nato. Escultor em madeira, pedra-sabão e terracota, pintor, ator, bailarino e poeta, não deixou nunca dúvidas de seu potencial.
Assis se tornou secretário de Turismo no governo de Oscar Yazbek no ano 2000. Em 31 de outubro de 2006 morre o Mestre Assis. Embu das Artes perdeu uma memória viva de sua história
Hoje, além da Feira, o visitante tem à disposição várias lojas de móveis rústicos, antiquários e de artesanato no centro histórico. Entre as opções de visita cultural oferecidas pela cidade está o Centro Cultural Mestre Assis do Embu, Memorial Sakai de Embu, Museu de Arte Sacra, Museu do índio e a Capela de São Lázaro. Veja mais em Turismo.

Assis, em reprodução da Revista O Cruzeiro, em 1970
O último trabalho de Assis do Embu, voltado a grupar artistas, foi realizado na coordenação do centro Conexão Cultural de Pinheiros (CCP), em São Paulo. Esse sempre foi um desejo, o de agregar os artistas, sempre fora dessa forma, desde quando estabeleceu seu Barraco do Assis, onde parecia querer agrupar a todos que não tinham onde ficar. A memória de Assis nunca se perderá, mas continuará viva, pulsante, no coração de Embu.
Um de seus poemas, talvez o mais famoso deles:
Poema à Margarida
(Autor: Assis de Embu)
Havia flores lindas!
Sobre a relva fétida e espinhosa
Onde urubus passavam sem pousar,
Onde gambás tapavam suas ventas;
Havia flores sobre o asfalto
Esmagadas pelos pneus dos autos,
Pobres pneus que não sabem amar;
Havia flores brotando nas montanhas
Das sementes que eu deixei cair,
Mas o sol,
Mais perto da montanha
Era mais quente
Queimou a flor
Queimou a flor
Havia flores em Hiroshima e Nagasaki
E a bomba atômica desintegrou as flores
Havia flores plantadas sobre as nuvens
E os falsos anjos
Levaram-nas para os falsos deuses
Havia flores nos canteiros das beatas
E elas os levaram para morrer com seus mortos;
Havia flores nas bocas dos canhões
Até que um dia o homem matou a flor
E o homem…
Havia flores sobre os rios,
Sobre os mares,
Mas o homem na ganância do poder
Destruiu as flores
E ensangüentou os mares
Havia flores nos prostíbulos
E os cafetões pisaram as sementes
Havia flores nos guetos de Varsóvia,
E Hitler massacrou-as com seus tanques
Havia, e ainda há flores
No Vietnã,
Na África,
No Iraque,
Mas os Ianques, os russos
Incendiaram-nas com suas bombas.
Destruíram até as flores que
Eu plantei no meu canteiro
A rosa
O cravo
A violeta
A dália
A papoula
O jasmim
A margarida de ontem
A margarida de hoje
Que ontem era vermelha
E quente como o meu sangue
Que ferveu por ela
Mas, passou-se o tempo
E o seu calor foi, foi sumindo, sumindo…
Hoje a margarida é branca
É pálida, é fria
Só tem no centro
O amarelo do desespero
Porque a canalha
Metralha-as de São Domingos
Por que os homens
Ainda massacram seus irmãos?
Até quando, margarida?
Até quando, margarida?
Até quando, margarida?

"O que faço é extravasamento do meu subconsciente", dizia ele sobre suas obras














4 Comentários para “Assis do Embu”
Amei Sr: Assis vivera eternamente dentro de quem o conheceu.
[...] o Jornal na Net. O Portal Embu Digital participou da disputa apenas na categoria reportagem, com a matéria sobre o Mestre Assis de Embu, e parabeniza aos [...]
eu pude ouvi- lo, numa noite em um restaurante… e quando num passe mágico, ele sobe na cadeira, onde estava, bem ali,. em nossa frante e em vos “vibrante” DECLAMA” esta poesia maravilhosa. pude ver lágrimas nos olhos das pessoas que o ouviam no mais respeitoso silencio. e no final em tom emocionalmente elevado… finalizou, ” agora margarida? e agora? disse completando… vamos todos pra puta que nos pariu… mais aplausos, assim éra o ASSIS. GRATO POR TUDO – joao jose o JJ
pai o senhor tinha luz propria, sempre brilhou independente do que falassem, voce fez Embu entrar no mapa e ser lançada como terra das artes, homen sábio, independente, corajoso lutador e vencedor, até a morte o senhor venceu pois , sua memoria será para sempre mestre aqui está a sua historia que é verdadeira e ninguem nunca irá apagar o senhor viverá para sempre…..no Embu não lhe deram o devido valor , mas o senhor conquistou o mundo com sua simplicidade , porem um genio na s artes plasticas e na arte de saber viver…..obrigada meu PAI QUERIDO TE AMO MUITO….MUITAS SAUDADES DE VOCE MESTRE ASSIS DE EMBU……ETERNO…………………… SUA RAQUELZINHA…….
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